• 22/12/2009
Aos 65 anos, fundação amplia acesso e colaboração do público ao principal acervo sobre história brasileira do século 20
Mais de 10 mil fotos dos álbuns de Alzira, filha e colaboradora do presidente, poderão ser consultadas e identificadas pelos usuários
CLAUDIA ANTUNES DA SUCURSAL DO RIO
A fotografia de 1952 tem ares de anos dourados, e nela nada prenuncia o suicídio, dois anos depois, do personagem central, o presidente Getúlio Vargas. Sentado à ponta de uma chaise longue nos jardins da granja Comary, antiga propriedade da família Guinle na região serrana do Rio, o governante que deu nome a uma era e mais tempo ficou no poder no século 20 está cercado por cinco mulheres, três delas na grama, a seus pés. A primeira à esquerda é sua filha e colaboradora, Alzira Vargas do Amaral Peixoto (1914-1992). As demais são senhoras do jet set da época. Entre os retratados no segundo plano, o milionário Didu de Souza Campos documenta o encontro com uma filmadora. A imagem é uma das 10.407 reunidas nos 102 álbuns de família da "rapariguinha", como Getúlio chamava Alzira. A maioria inédita, elas foram digitalizadas e serão liberadas à consulta hoje, na nova versão eletrônica do acervo do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil), a escola de ciências sociais e história da Fundação Getulio Vargas e sigla fundamental a quem busca informações sobre o período republicano. A remodelagem da página, agora no endereço http://cpdoc.fgv.br/, comemora os 65 anos da FGV, neste domingo, e traz três novidades. A primeira é o mecanismo de busca, agilizando o acesso a 198 arquivos, 5.000 horas de gravação da série História Oral e aos verbetes do "Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro". Outra inovação é o tamanho do conjunto digitalizado, que passará de cem mil para 480 mil páginas de documentos e de 80 mil para 160 mil fotos. Por fim, haverá um mecanismo de "anotação colaborativa", explica Suely Braga, coordenadora de documentação do CPDOC. O usuário poderá sugerir adendos à classificação ou apontar equívocos. Se confirmada, a informação será incorporada ao arquivo. As fotos de Alzira, que vão dos anos 20 ao governo Juscelino Kubistchek (1956-1961), são um caso em questão. No início, ela marcava data e local, sem identificar todos os retratados. Nos últimos álbuns, deixou bilhetes com notas em vermelho, à modo de legenda. A classificação das imagens foi quase toda feita por Regina Luz, "memória viva" da família Vargas no CPDOC, como brinca Celso Castro, estudioso das Forças Armadas e diretor do centro. Com 32 anos de casa, a pesquisadora organizou o arquivo do cacique do PSD fluminense Ernani do Amaral Peixoto (1905-1989), marido de Alzira, e editou os dois volumes dos "Diários de Getúlio Vargas". Então presidente (governador) do Rio Grande do Sul e logo do Brasil, após a revolução que pôs fim à República Velha e iniciou a modernização do país, Vargas seria ditador no Estado Novo (1937-1945) e voltaria, eleito, à Presidência, em 1951. Com tantos personagens, nem a memória de Regina pôde completar todas as legendas. Na foto da granja Comary, uma das cinco mulheres que conversam com o presidente aparece apenas como "Jenny". Essas lacunas poderão ser preenchidas pelo público. "O "Dicionário" e a História Oral foram marcos de como fazer história recente. Este é mais um momento de inovação", disse Celso Castro.
|